Porque existes tanta discussão sobre os formatos de tela Wide e Fullscreem

Quem compra DVD ou lê algo sobre ele (em sites, revistas, ou mesmo na caixa do produto) com certeza já se deparou com as expressões 'Fullscreen' e 'Widescreen'. Infelizmente (mesmo), poucas são as pessoas que sabem direito o que elas significam, porque existem, e principalmente porque há tanta discussão falando disso.

Curta e grossamente, sendo bem reducionista só para começar o assunto, fullscreen (ou standard) é o formato que se adapta ao tamanho da TV que você tem em casa, ocupando a tela inteira. Widescreen é o formato que apresenta as famosas e controvertidas barras pretas acima e abaixo do filme. Mas porque diabos os fãs de cinema, revoltados, fazem algazarras dizendo que o widescreen é melhor?



Cena do filme 'Questão de Honra' em FULLSCREEN

Vamos com calma. Um pouco de história cabe aqui. Nos Estados Unidos, filmes mais antigos eram sempre feitos e apresentados utilizando o formato  fullscreen, que além de standard pode ser chamado pelas medidas 4 x 3 (largura por altura) ou pela relação 1:33:1. As telas de cinema da época eram assim, e foi esse também o padrão escolhido para ser usado nas televisões logo que elas começaram a ser vendidas, em torno dos anos 50. (Por isso, DVDs que você compra hoje de filmes antigos, como Gilda, são sempre em formato fullscreen).

         Mas a tecnologia estava sempre se desenvolvendo e os estúdios de cinema estavam sempre tentando apresentar novidades para atrair mais público, grande parte dele preguiçoso agora que havia TV em casa. Começam então os famosos filmes em três dimensões (aquele onde você usava um óculos vagabundo de celofane azul e vermelho...há vários exemplos, lembro do original de "A Múmia" - não esse atual cheio de efeitos, mas um antigo em preto e branco - onde você usava os tais óculos e tinha a impressão que a referida múmia saía do sarcófago pra cima de você na cadeira...). É nessa época de inovações que é introduzido o formato widescreen ( que seria a tela larga, retangular, como é a do nosso cinema hoje.) Os formatos widescreen mais usados são os de relação 1:85:1 e o 2:35:1, o chamado anamórfico.



A mesma cena agora em WIDESCREEN

       Agora a polêmica: na época em que os filmes eram FEITOS em formato tela cheia, você, consumidor de cinema, tinha na sua frente exatamente o que o diretor queria que você visse. Hoje em dia, o formato usado para se filmar na imensa maioria das indústrias é o widescreen, que é exibido nas telas retangulares das salas de projeção. Utilizando-se exatamente do fato de você ter um retângulo como formato para trabalhar, os diretores passaram a focar personagens e objetos nas laterais, não só no centro. Essas áreas do lado então são fundamentais para você ter a riqueza de detalhes que ele (diretor) quer mostrar em seu trabalho.

       Agora imaginem filmes blockbusters como 'Homem-Aranha', 'Questão de Honra' ou "O Senhor dos Anéis", que foram filmados em widescreen. Vamos supor que só foram lançados em DVD no Brasil como fullscreen. (no caso do Aranha, foi só em full mesmo) A tela de cinema é retangular, a da televisão , quadrada. Visualize mentalmente um retângulo de papel em cima de uma mesa. Agora imagine um quadrado com papel de outra cor, centralizado exatamente no meio do retângulo. O que acontece? O quadrado não cobre tudo, ficam de fora as laterais do retângulo. (que, se segure para não cair, correspondem a 45% do filme!) É exatamente isso que acontece quando se força um filme widescreen retangular a caber numa TV fullscreen quadrada, através de um processo chamado 'Pan & Scan', que foca e 'grava' somente no quadrado central de imagem. Você perde informações no filme que o diretor queria mostrar, (dados muitas vezes fundamentais) pois não há espaço para elas. Dá pra entender agora porque os fãs de cinema ficam querendo bater em alguém quando há filmes famosos como o citado 'Homem-Aranha' e  outros como 'Onze Homens e Um Segredo' sendo lançados no Brasil SOMENTE em tela cheia, quadrada?

      Mas aí certamente você, que está chegando agora no assunto, pergunta: mas a tela de TV É quadrada e a de cinema É retangular...COMO obter o filme com as laterais, o filme integral, se a TV da minha casa é quadrada mesmo? Através do formato widescreen (ou letterbox) em DVDs. É um processo que reduz o tamanho do quadro inteiro, para que o retângulo todo caiba dentro do quadrado. Voltemos para o exemplo do papel. Mantenha o mesmo quadrado que você imaginou antes. Agora visualize um retângulo menor, que caiba dentro do mesmo quadrado, de um lado a outro. O que acontece? Agora sobram espaços no quadrado, em cima e embaixo. Como não há nada lá, o que se vê é somente preto. Eis então as famosas barras pretas dos filmes widescreen, que preservam todo o conteúdo lateral do filme.

     Para terminar por hoje essa primeira coluna sobre o assunto, mais um dado. As televisões também estão se aprimorando e num futuro bem próximo, todas serão substituídas por TVs Widescreen. (Você já deve ter visto em shoppings ou na casa de algum amigo...são aquelas TVs de telas retangulares, bem bonitas e ainda relativamente caras). Quando esse futuro chegar, e você for assistir o seu DVD Widescreen na sua TV Widescreen, as barras negras sumirão; e o filme se acomodará perfeitamente no formato retangular. Por outro lado...se você for colocar um DVD formatado para fullscreen das TVs antigas na sua TV wide...as barras pretas aparecerão novamente...mas agora dos lados, direito e esquerdo! E o pior de tudo será você saber que HAVIA imagem e informação naquelas laterais, mas que elas foram destruídas para que o filme coubesse na sua antiga e jurássica TV de tela quadrada...e não pense que você tão cedo não terá uma TV wide, o futuro da TV no mundo é widescreen. Com o tempo, o formato terá seu preço mais acessível e a tela atual, quadrada, desaparecerá. Quer uma prova? Você tem visto muitas TVs  pretas e brancas ultimamente? (Gerações inteiras nasceram somente conhecendo TVs coloridas...)



Como ficaria um filme formatado somente em FULLSCREEN na sua futura TV WIDESCREEN

Aparentemente, a questão wide X full em DVDs é simples e rápida de entender, mas a realidade não poderia ser mais contrária a essa afirmação. Tanto em um padrão quanto em outro há informações mais aprofundadas que você, consumidor da mídia digital, deve conhecer para depois combiná-las aos dados específicos de sua televisão; afim de ter o melhor aproveitamento de sua aparelhagem e uma conseqüente  exibição superior de seus filmes preferidos.
        Primeiro, convencionemos: se a sua televisão NÃO É widescreen (relação de aspecto 16X9), então ela é 4x3, 'quadrada' como a imensa maioria dos aparelhos. Geralmente, os aparelhos de DVD vem com três tipos de regulagem para proporção de tela: 4:3 PAN & SCAN, 4:3 LETTER BOX e 16:9 WIDESCREEN.

        Como você viu na coluna anterior, o primeiro, o 4:3 PAN & SCAN é aquela chamado de tela cheia, onde toda a tela de seu aparelho fica ocupada pelo filme, perdendo-se as laterais do mesmo. Mas na verdade, cabe aqui uma pequena retificação (que descobri recentemente e acredito pouca gente saiba) que seria a diferença entre os dois tipos de tela cheia, o PAN & SCAN e o STANDARD. Na prática, certo, ambos ocupam a tela inteira da TV e perdem as laterais, ok. Mas no STANDARD o que você vê na tela é o quadrado central do filme, não importando quem ou o que esteja nele. (como você vê nesse exemplo de destruição do filme "A Maior História de Todos os Tempos", de 1965 que o padrão provoca, simplesmente ignorando vários apóstolos na cena da Santa Ceia). Já no padrão PAN & SCAN, a empresa que faz a autoração do filme pode selecionar ONDE o quadrado focará, horizontalmente. Explico: nesse exemplo do filme de Jesus, o quadrado  focado é o central e pronto, acabou. Por sorte, Jesus estava no centro. Mas muitas vezes o ator principal ou o acontecimento principal está no canto da imagem e não no centro dela. Para isso, serve o PAN & SCAN; a empresa seleciona quadro a quadro QUE parte do filme será focada e quais serão desprezadas. É um trabalho difícil, pois a todo momento você deve escolher que partes serão perdidas. O exemplo abaixo ilustrará melhor: no filme Caça-Fantasmas 2, há três personagens dialogando. Mas a empresa TEM que cortar uma parte do quadro, então, escolhe 'dos males o menor': corta um dos caça-fantasmas (logo o Peter Venkman!) e deixa os outros dois.

Fica estranho porque, isoladamente, você não sabe a quem os dois se dirigem. Mas sabe, vendo o filme, que o terceiro personagem está ali, mesmo que naquele quadro não esteja focado. Agora, se nessa cena específica a reação do personagem de Bill Murray fosse relevante para a história...você ficaria sem ver, porque não foi o quadrado escolhido para aparecer em toda a sua tela de TV....Esse "Caça-Fantasmas 2" é um bom exemplo de como a empresa, tendo que trabalhar com o padrão PAN & SCAN, pensou em minimizar os efeitos dos cortes da melhor forma possível...mas há infindáveis maus exemplos...veja abaixo o que aconteceu com essa cena do filme 'Homem-Aranha', que foi lançado no Brasil somente em fullscreen....(as barras laterais negras estão presentes por tratar-se de um filme full exibido em TV wide). Na cena, o personagem do Peter Parker praticamente desaparece, e sabermos que ele está ali, tirando a foto da personagem de Kirsten Dunst, é muito relevante....(se você olhar muito rapidamente, você nem vê o pedacinho do Tobey Maguire aparecendo...). Se fosse feito com mais cuidado, poderíamos por exemplo sacrificar o que está atrás da atriz, em nome de um maior aparecimento em tela do ator. Mas...

       Agora, sobre o padrão widescreen, mais informações: o 4:3 LETTERBOX é o padrão que você deve escolher para usar se a sua TV não é widescreen. Letterbox é aquele widescreen descrito na coluna anterior, que regula proporcionalmente a imagem para preservar o aspecto original do filme e usa faixas pretas acima e abaixo da imagem. (O retângulo que cabe inteiro dentro do quadrado). Já o 16:9 widescreen anamórfico, (descrito em muitas caixas de DVD)é aquele no qual a imagem é comprimida na forma horizontal, para que encaixe numa TV 4x3 ou se adeque perfeitamente a uma TV widescreen 16x9. Geralmente, numa TV comum, o widescreen anamórfico fica 'esticado', dependendo do aspecto de tela em que o filme foi feito (1:85:1 ou 2:35:1, por exemplo). Para evitar isso, o DVD player deve estar configurado então para o 4:3 Letterbox, enquanto você ( e eu) não compramos uma TV Widescreen. (Quando comprei minha televisão, uma Toshiba de 38 polegadas, tela normal, e meus aparelhos de DVD - o primeiro, um Toshiba SD 3107e o segundo, mais novo, um Sony NS 325 - não precisei mexer em nada. Na época, na verdade, nem entendia de nada disso. Pluguei os cabos e liguei o DVD. Ficou bom. Mas um grande amigo meu comprou um DVD novo que, ao ser ligado na TV dele, distorceu a cara de todo mundo nas imagens. Distorceu tudo, na verdade. Ele, que é cinéfilo, 'pirou'. O DVD velho dele, que exibia a imagem bem, estava ruim e ele teve que ficar com o novo daquele jeito mesmo. Ele ainda ficou se perguntando como o aparelho antigo resolvia o assunto e o novo, supostamente mais moderno, causava esse problema. Acho que o ideal seria que os DVD players e as TVs se acertassem automaticamente...mas repetindo a frase do início da coluna.... a realidade não poderia ser mais diferente...portanto, ...vamos procurar os manuais de instrução....)
         Ah, não, mais medidas? Sim, ainda temos que pensar em COMO, em que proporção de aspectos, os filmes e programas foram filmados, pois isso influencia na hora de exibí-los. Mas deixemos essa parte para a próxima coluna, pois esta já está bem extensa.

p.s. Essa matéria teve como base pesquisa feita por Marcos Alberto Corbi.

p.s 2. Consegui informações, fãs do Aranha, de que a empresa responsável pelo filme em DVD no Brasil ( depois de lançar a versão dupla E a tripla em fullscreen) afinal lançará 'Homem-Aranha' em widescreen no fim do ano, possivelmente no mês de novembro. A edição possivelmente trará de bônus uma faixa de comentário em áudio inédita de Tobey Maguire (o protagonista do filme), sendo similar à chamada edição SuperBit americana. Os outros extras, presentes nas edições já lançadas, não serão repetidos. Ou seja: para serem adquiridos, só comprando alguma das edições em fullscreen.

Como já foi mostrado em colunas anteriores, o widescreen teve sua origem no cinema: inicialmente, os filmes eram rodados em 35 mm, e, com o advento da TV, surgia o padrão 4x3 tela cheia, que se adequava a esse formato. Mas o cinema queria a volta dos públicos, agora cada vez mais cativo das televisões; e desenvolveu novas técnicas como as chamadas Cinemascope e Cinerama, ambas filmadas em 70 mm. Essas técnicas ampliavam drasticamente a largura das telas, de forma que o cinema passasse a ter aquele caráter monumental, que só poderia ser experimentado em salas de projeção. Daí vem o widescreen.

     Aparentemente pode-se resumir o widescreen a isso: tela mais larga. Mas há diferentes aspectos de tela de cinema hoje em dia (do 1:33:1 ao 2:35:1); sendo assim, resumo tão reducionista de definição não seria mais apropriado.

      O formato a ser escolhido para cada filme que assistimos depende, claro, de uma série de fatores, mas basicamente quem dá a palavra final são os investidores ; quem vai liberar a verba,  pois tudo depende do quanto se quer  gastar. (Normalmente quem aparece levando o crédito por essa escolha é o diretor). Filmes épicos por exemplo ficam melhores se forem filmados em 70 mm (aspecto 2:75:1) mas a TV widescreen tem 1:78:1. Logo, os widescreen mais usados no cinema passaram a se concentrar entre 1:66:1 e 1:85:1; duas proporções que minimizam muito as perdas de imagem. Para ilustrar melhor essas definições de aspectos, o jornalista Marcos Alberto Corbi fez várias figuras usando tijolos para que se tenha uma idéia mais acertada das proporções. Aqui estão:

1:33:1  - Tela cheia, fullscreen, usado na maioria das TVs 4x3

1:66:1 - Menor tamanho de widescreen, muito usado em filmes europeus. Muito bom em TVs 16 x 9 e apresenta pequenas faixas pretas em 4x3

1:78:1 - Muito usado em DVD, e também na programação de TV digital. Ideal para TVs wide e apresenta pequenas faixas pretas em 4x3

1:85:1 - Grande parte dos filmes em DVD. Também ideal para TVs wide, apresentando pequenas faixas pretas em 4x3

2:20:1 - Pouco usado, apresenta faixas pretas em TVs wide e grandes faixas em TVs 4x3

2:35:1 - A maioria dos filmes de cinema, filmados em Cinemascope/Panavision. Apresenta pequenas faixas pretas em TV 16 x 9 e grande faixas pretas em TV 4x3

2:55:1 - Boa parte dos filmes antigos. Novamente, pequenas faixas pretas em TV 16 x 9 e grande faixas pretas em TV 4x3

2:75:1 - Também boa parte dos filmes antigos. Novamente, pequenas faixas pretas em TV 16 x 9 e grande faixas pretas em TV 4x3

     Os primeiros dois números representam unidades de largura e o último representa unidades de altura de tela. Para cada aspecto acima utilizando os tijolos, aplique essa definição. Exemplo: para 2:75:1, imagine que para cada metro da parede de tijolos, há 2,75 metros de largura. Assim seria na tela de projeção.

     Mas, como você deve imaginar, o assunto widescreen x fullscreen ainda não terminou. Consegui muitas outras informações, que passarei em colunas futuras. Nas próximas, porém, mudarei um pouco de assunto, para que não se desgaste o tema.

     Para encerrar essa nona coluna, uma polêmica sobre o widescreen da trilogia "De Volta para o Futuro": a Universal, que lançou os DVDs no Brasil, informou em dezembro de 2003 que houve um erro no enquadramento de tela wide em alguns lotes de DVDs colocados à venda no mercado. Segundo a empresa, o erro ocorre em dois minutos do segundo filme e em quatro minutos do terceiro filme. Mas fãs na internet bradam que os erros aparecem durante a exibição inteira. (O primeiro filme não apresenta problemas, concordam todos).


"De Volta para o Futuro" Parte II  - WIDESCREEN CORRETO


"De Volta para o Futuro" Parte II  - WIDESCREEN MAL ENQUADRADO


"De Volta para o Futuro" Parte II  - FULLSCREEN

     Para saber se seus DVDs da trilogia possuem o erro, observe as fotos abaixo. Se a mão do personagem Doc Brown estiver cortada (bem como a calça inteira do personagem Marty McFly) é caso de pedir o chamado recall dos DVDs. Para isso, o consumidor deve entrar em contato com o call-center da Universal Pictures pelo telefone 0xx11-3959-1234, onde serão informados os procedimentos para a troca dos filmes. (Os mesmos fãs na net asseguraram a rapidez e eficiência do recall). Tenha em mãos ao ligar os dois discos e seu CPF. Não há custo algum para o consumidor. Mas atenção pois os discos com numeração 43287S3030911V0D08 ou 43288S3030914V1D06 (referentes ao Disco 2) e 43275S3030912V0D01 ou 43276S3030913V1D02 (referentes ao Disco 3) não apresentam defeitos. A troca será necessária para qualquer outra numeração.


p.s Essa matéria possui trechos baseados em pesquisas feitas por Marcos Alberto Corbi.

 
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